• Ana Paula Psicóloga

Os princípios éticos no ambiente da ciberpsicologia - Parte 1

A globalização levou a sociedade modificar seus comportamentos em toda esfera biopsicossocial. Na década de 80, o filme “De Volta para o Futuro” (1985), dirigido por Robert Zemeckis, mostrava um futuro promissor com carros ultratecnológicos, aparelhos de telepresença, objetos eletrônicos quase mágicos etc. O filme era considerado ficção científica.


Ora, não imaginávamos que no XXI estaríamos vivendo a era da tecnologia: falar com uma pessoa distante com possibilidade de vê-la; estudar sem aulas presenciais, através da internet (modalidade EAD); processos seletivos através da internet; relacionamentos fortalecidos através deste meio; negócios intercontinentais concretizados à distância; máquinas fazendo aquilo que somente o homem fazia etc. Logo, no âmbito social, as pessoas acabam passando a maior parte do tempo conectadas às mídias sociais. Existem os fatores positivos e negativos da internet, a rede virtual que conecta o mundo todo.


Entretanto, queremos destacar a influência da Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) na área da saúde, na psicoterapia realizada através do ambiente virtual. Conforme Sbardelotto (2011 apud Rodrigues, 2014), junto com o desenvolvimento da internet como novo meio, está nascendo também um novo ser humano. Novas ações foram criadas e a modificabilidade cognitiva ocorre, inclusive no âmbito relacional e organizacional.



A Psicologia estuda o desenvolvimento humano, e os estudos levam ao estabelecimento de regras básicas da atividade psicológica, sua evolução, a descoberta de mecanismos que lhe sirvam de base e a descrição das mudanças que ocorrem nos estados patológicos das pessoas, com um olhar biopsicossocial. Essa ciência também está adentrando nesse mundo virtual.


Desde o ano de 2005, o número de profissionais de Psicologia atendendo através do atendimento online está aumentando. Enquanto isso, a internet está cada vez mais acessível à população brasileira. Segundo Pedroza (2019), o Brasil possui mais de 122 milhões de usuários com acesso à rede (59% da população).


A questão é: qual é o papel ético do psicólogo ao atuar através da ciberpsicologia? Ainda é uma quebra de paradigma para muitos psicólogos o trabalho neste novo ambiente.

A chamada “Geração Z” (pessoas nascidas, em média, entre meados dos anos 1990 até o início do ano 2010) apresenta maior facilidade, porque desde a infância convive com a internet. Por outro lado, é um ambiente para atuação de todas as gerações.


Contextualização: Psicoterapia online

Pieta et al. (2015) afirmam que a Psicoterapia pela Internet é um termo que abrange uma ampla gama de intervenções psicoterápicas na rede. Esses autores dizem que “a psicoterapia pela Internet vem se mostrando uma prática atraente de atendimento à saúde mental, por sua disponibilidade, conveniência, acessibilidade, baixo custo, anonimato, privacidade e redução de estigma” (Cartreine et al., 2010 apud Pieta et al., 2015).


Enquanto em países da América do Norte e Europa os estudos sobre a Psicologia online ocorrem há mais de cinquenta anos, no Brasil os estudos sobre a atuação do psicólogo na prestação de serviços através da TIC ocorrem somente há cerca de trinta anos. O Conselho Federal de Psicologia criou a primeira Resolução a respeito do assunto em 1995 e desde então foram criadas outras cinco resoluções: nº 02/1995, nº 03/2000, nº 12/2005, nº 11/2012 e nº 11/2018, buscando ampliar o desenvolvimento da psicologia online. A última resolução, conforme versão comentada elaborada pelo Grupo de Trabalho para Revisão da Resolução nº 11/2012, “está embasada no fato de que as(os) profissionais de Psicologia serão responsáveis plenos pela adequação e pertinência dos métodos e técnicas na prestação de serviços.”



As modalidades de atendimentos psicoterápicos caracterizam-se pelas formas síncrona e assincrônica. De acordo com Suler (2002, apud Marot e Ferreira, 2008), a primeira envolve a comunicação em tempo real, o que pressupõe a marcação de um horário limitado de atendimento, como em um consultório, enquanto na segunda o terapeuta e o cliente não precisam se comunicar simultaneamente, o que faz com que a percepção temporal desapareça.


A terapia síncrona possibilita o paciente estar em contato direto com o profissional, seja através de uma sala virtual, chat ou contato telefônico. A terapia assincrônica é caracterizada pela troca de mensagens através de e-mail. O profissional combina com o paciente o tempo em que responderá os e-mails. Hoje, o atendimento psicoterápico online ainda está quebrando paradigmas em no Brasil, enquanto em outros países já é algo comum.


Rodrigues (2015) relata em seus estudos:

A psicoterapia online se apresenta como possibilidade a mais, como um novo eio de prestação de serviço na área de saúde mental, com potencialidade para preencher lacunas significativas, entre elas a de propiciar oportunidade de atendimento a pessoas com dificuldade de mobilidade, com limitações de tempo, moradoras de localidades rurais ou distantes dos centros urbanos e dos profissionais especializados, além de propiciar redução de custos. Obviamente que surgem com esse novo “espaço” de trabalho novas configurações de atendimentos psicológicos, tanto da técnica quanto dos sujeitos da técnica.


Porém, desde a Resolução nº 011/2018, os dados do Conselho Federal de Psicologia têm mostrado o quanto está crescendo essa modalidade de atendimento, que é definida da seguinte forma:

Entende-se por consulta com ou atendimento psicológicos o conjunto sistemático de procedimentos, por meio da utilizados de métodos e técnicas psicológicas do qual se presta um serviço nas diferentes áreas de atuação da Psicologia com vistas à avaliação e ou intervenção em processo individuais e grupais (artigo 2º, §1º da Resolução nº 011/2018).


A Resolução nº 011/2018 possibilitou a ampliação dos atendimentos psicológicos como: processo de seleção pessoal, orientação profissional, supervisão técnica dos serviços prestados por psicólogos nos mais diversos contextos de atuação e a extinção da limitação de números de atendimentos, antes existente.


A tendência é que os atendimentos psicoterápicos aumentem, pois antes da primeira infância os bebês já começam a relacionar-se com a internet através dos desenhos animados, na primeira infância algumas crianças já têm seus próprios acessórios eletrônicos, enfim, o mundo virtual faz parte da vida cada vez mais cedo.

Rodrigues (2015), destaca também que no Brasil os novos processos de midiatização das práticas psicológicas se expandem e tendem a continuar crescendo, o que parece assustar os mais conservadores e avessos a novidades. No entanto, como afirma Levy (1999, apud Rodrigues, 2015): “a emergência do ciberespaço acompanha, traduz e favorece uma evolução geral da civilização.”


Não há como negar que a inserção de psicólogos para a modalidade online está aumentando, plataformas de atendimento estão sendo criadas, convênios médicos estão incluindo os atendimentos online em seu quadro de procedimentos. De acordo com Garção (1999, apud Leite, 2016), é possível ultrapassar os campos já conhecidos da Psicologia, sem perder a sua essência, vislumbrando novas possibilidades para agregar valor a práxis psicológica, adentrando uma temática nova e, por conseguinte, pouco explorada, mas que vem chamando a atenção das populações atendidas e dos profissionais que querem abranger e estimular a adesão à psicoterapia.


Vale ressaltar que o profissional de Psicologia não pode deixar de desenvolver seu trabalho segundo os parâmetros do código de ética do CFP. Ainda são necessários mais estudos sobre o desenvolvimento da Psicologia online. Outrossim, levando-se em consideração os levantamentos bibliográficos realizados, o aumento da adesão de atendimentos psicoterápicos na internet ocorre diante a várias questões, como por exemplos: a comodidade de não necessitar do deslocamento a um consultório ou clínica, o custo dos atendimentos, a conexão de brasileiros que residem em outros países para desenvolver o atendimento na sua língua materna etc.


Os estudiosos e pesquisadores sobre o atendimento psicológico online, comprovam também sua eficácia. Cook e Doyle (2002, apud Marot e Ferreira, 2008) compararam a aliança terapêutica em atendimentos online e presencial. Constataram, como resultado de suas pesquisas, que os participantes apontaram a desinibição e a sensação de liberdade para falar de si na psicoterapia online, sem constrangimento ou medo do julgamento do psicoterapeuta, como vantagem desse serviço. Há outros pesquisadores, como Pieta, que também comprovaram a eficácia do atendimento psicoterápico online. Porém, todos os estudos destacam a importância de o psicoterapeuta desenvolver estudos contínuos, inclusive o desenvolvimento de ações e atitudes éticas também para o ambiente online.


A Importância da Ética

Vivemos em uma era em que falar sobre ética é uma utopia para algumas pessoas. Mas a ética faz parte da nossa história. Valls (1994) traz o seguinte conceito, por ele considerado tradicional, de Ética: “um estudo ou uma reflexão, científica ou filosófica, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as ações humanas.”


A prática da ética traz harmonia para o ambiente sociocultural. A ética possibilita harmonia para sociedade. É uma forma de respeito. Entretanto, para praticá-la faz-se necessário conhecer os costumes das diferentes épocas e dos diferentes lugares.


Hoje a sociedade está cada vez mais consciente de seus direitos, pois vivemos uma era de prestação de serviços e é preciso que os profissionais da saúde estejam preparados também para desenvolver seu trabalho com ética diante do ambiente online. Siegmund et al. (2015), em seus estudos sobre os aspectos éticos, destacam:

A declaração universal dos princípios éticos para psicólogos (International Union of Psychological Science [IUPsyS], 2014) estabelece quatro princípios básicos sobre os quais os profissionais e pesquisadores devem pautar-se: 1) Respeito pela dignidade das pessoas e dos povos; 2) Cuidado competente pelo bem estar de pessoas e dos povos; 3) Integridade; 4) Responsabilidades profissional e científica à sociedade. Para manter o respeito a esses quatro princípios centrais, cuidados e procedimentos éticos devem ser tomados de forma a proteger o usuário e o profissional praticante do serviço. Uma orientação geral da Sociedade Britânica de Psicologia (BPS) é que quanto maior o risco envolvido no atendimento, maiores devem ser os cuidados éticos.


Todo ser humano quer ser respeitado, pequenas atitudes fazem toda a diferença, e as pessoas que buscam atendimento psicoterápico, seja através da modalidade assincrônica, sincrônica ou presencial, anseiam por acolhimento diante da sua dor. Os valores éticos devem ser cada vez mais potencializados. O profissional da Psicologia lança sementes de mudanças para proporcionar bem-estar e no ambiente online também são necessárias ferramentas que auxiliem o cliente. As ações éticas proporcionam harmonia e bem-estar.

Esparcia (2002, apud Rodrigues, 2015) considera princípio básico e fundamental, derivado da bioética e dos códigos das ciências da saúde a diretriz de “não causar dano” ou que se deve ter o cuidado de não provocar um dano superior ao benefício esperado.


Um dos papéis do profissional de Psicologia é procurar desenvolver atitudes éticas. O artigo 1 do Código de Ética destaca o dever do psicólogo:

“Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional”.


Para estender boas práticas do profissional precisa-se protocolos para intervenção e educar os profissionais para o desenvolvimento ético na atuação. Sim, é preciso o psicólogo desenvolver o princípio ético. Silva (2017) menciona que o profissional bem formado em TIC acaba atendendo seu paciente de forma a proporcionar mais qualidade. É uma das formas de realizar o trabalho com atitudes éticas.


Para Siegmund et al. (2015):

Intervenções on-line atendem plenamente a declaração de princípios da IUPsyS. Confidencialidade e sigilo são premissas básicas do serviço psicológico em qualquer instância (CFP, 2012). No contexto on-line, é necessária atenção redobrada a esse quesito. O cliente deverá ser informado dos riscos relacionados à segurança dos dados (BPS, 2009, 2013).


Para melhorar as ações éticas, é preciso de discussões, estudos, pesquisas para unificar as ações adequadas para o desenvolvimento do atendimento psicológico ético. Para o Colégio Oficial dos Psicólogos de Madrid (2011):

Uma conclusão final seria que, não podemos continuar agindo de acordo com meu melhor conhecimento e entendimento, mas de acordo com critérios analisados e debatidos por toda a profissão, uma vez que a ação ambígua de um psicólogo se inverte negativamente em todo [1] (tradução nossa).


[1]“Una última conclusión sería que, no podemos mantenernos en obrar según mi mejor saber y entender, sino según criterios analizados y debatidos por el conjunto de la profesión, pues la acción equívoca de un psicólogo revierte negativamente en el conjunto.”


Segundo Gómez-Senent (1994, apud Colégio Oficial dos Psicólogos de Madrid, 2011), os principais objetivos de um código de ética são: garantir prestígio profissional, delimitar competências específicas da profissão, assumir as responsabilidades que lhe são próprias, promover o desenvolvimento técnico e científico, favorecer a reciclagem pedagógica por meio de treinamento contínuo, definir o comportamento considerado apropriado, evitar concorrência desleal e constituir uma base para a aplicação de sanções.


Esse autor valoriza a necessidade de um contínuo aprendizado e a postura ética. Analisando os aspectos do nosso país, em que ainda estamos fortalecendo o atendimento psicoterápico online, é preciso construir redes de conectividade com os psicólogos para fortalecer os estudos sobre o desenvolvimento ético na ciberpsicologia.


Continua no próximo texto!